A Árvore das Quietudes

No coração do Parque agitado, onde o tempo respirava em compassos vegetais, crescia a Árvore das Quietudes. Não era a mais alta, nem a mais frondosa, mas era a única que abrigava fadas das estações internas. Cada uma delas representava um modo de ser da própria árvore – e, sussurravam os mais velhos, um modo de ser da alma humana.

No alto, entalhada na casca que parecia veludo petrificado, havia uma cavidade. Ali moravam duas irmãs-gêmeas que jamais se encontravam: Alesta, da Folha Verde, e Calas, do Galho Nu.

Alesta era movimento. Seus cabelos eram dos verdes mais novos da primavera e seus olhos, do verde mais profundo do verão. Suas asas lembravam folhas de hera ao sol. Enquanto ela dançava ao redor da copa, a Árvore das Quietudes vestia-se de uma folhagem tão densa que abafava qualquer som exterior. Era um verde que aconchegava, que prometia, que escondia. Os pássaros construíam ninhos em seus galhos e os animais descansavam à sua sombra. Alesta acreditava que a vida era sinfonia, fotossíntese, perpetuar o verde infinito.

No lado oposto da cavidade, Calas era repouso. Seus cabelos eram da cor da casca exposta no inverno, e seus olhos, do cinza sereno do céu antes da neve. Suas asas eram finas como nervuras de folhas secas. Quando era sua vez, ela não dançava. Sentava-se no ponto mais alto, e um sopro partia dela, suave e implacável. As folhas da Árvore começavam a secar, não por morte, mas por uma quietude profunda. Amarelo, depois laranja, depois ocre, finalmente marrom. E caíam. Galho a galho, a árvore se despia até ficar apenas sua estrutura nua, desenhada contra o céu. Calas acreditava que a verdadeira força estava no que restava quando tudo o que era supérfluo se ia.

Aquele Parque no meio da cidade entendia: enquanto Alesta reinava, a Árvore era abrigo. Enquanto Calas governava, a Árvore era desenho.

Os humanos que se aventuravam até ali tinham suas preferências. Os sonhadores e amantes preferiam visitar na época de Alesta. Os filósofos e os cansados, na época de Calas. Até que uma jovem cartógrafa, Elara, chegou com uma missão diferente: mapear não o espaço, mas o tempo do bosque. E ela ficou.

Ficou para ver a transição.

Testemunhou quando Alesta, no auge de seu vigor verde, começou a sentir um cansaço nas asas. A dança já não fluía. As folhas, tão verdes, começaram a mostrar bordas douradas, não por falta de vida, mas por excesso de algo interior. Era o chamado de Calas, ainda adormecida na casca.

Então, sem alarde, a mudança: Alesta recolheu suas asas e entrou na cavidade. Do lado oposto, Calas emergiu. Seu primeiro sopro não foi de destruição, mas de revelação. E Elara viu: as folhas não morriam. Elas se entregavam. E ao cair, expunham a arquitetura secreta da árvore, os galhos que se entrelaçavam como histórias antigas, os botões minúsculos e duráveis que já esperavam o próximo ciclo.

Foi ali, sentada entre as folhas secas que cheiravam a mel e terra, que Elara entendeu.

Ela escreveu em seu diário de bordo, que depois se tornaria o único mapa deste lugar:

“Há estações dentro de mim.

Há uma Alesta – que quer produzir, criar, estar cheia, verdejar, abrigar outros, ser útil e ruidosa em sua existência. É necessária. É a folhagem que me dá identidade perante o mundo.

E há uma Calas – que precisa que as folhas sequem e caiam. Que exige um desnudamento. Que para a dança, silencia o Parque interior e deixa que a estrutura óssea da alma fique exposta ao céu. É quando vejo meus galhos retorcidos, minhas cicatrizes de tempestades passadas, e os botões dormentes do que ainda virá. É o repouso que não é morte, mas verdade.

O erro é achar que uma estação é melhor que a outra. O sofrimento é querer ser apenas folha, ou apenas galho. A vida, a árvore me sussurra, está na coragem da alternância. Em aceitar o cansaço da folha cheia como um prenúncio do desnudamento necessário. E em confiar que a nudez do galho não é o fim, mas a condição para um novo verde, diferente do anterior.”

Anos depois, Elara se tornou a guardiã do bosque. E aos visitantes que perguntavam qual a melhor época para ver a Árvore das Quietudes, ela respondia:

— Venham na transição. Venham ver a primeira folha seca caindo no colo de um mundo verde. Ou o primeiro broto teimoso rompendo a aparente morte. Porque é ali, no limiar, que você vê a maior magia: a árvore não tem medo de perder suas folhas. Ela sabe que essa perda não é uma perda, mas um ato de fé na sua própria estrutura.

E se você parar quieto o suficiente, em qualquer estação, poderá ouvir o sussurro duplo vindo da cavidade no tronco: o riso de Alesta e o silêncio sorridente de Calas, duas faces da mesma moeda, ensinando que somos inteiros não apesar das estações, mas porque temos estações para viver.

08 de Dezembro 2025