Meu Diário Irlandês

Hoje quero falar sobre saudade.

Quando pensamos na palavra, ela remete a sentir falta de algo. De pessoas, família e amigos. Dos cachorros, especificamente de três cachorros (uma gulosa, um carente e o meu branquelinho) e uma gatinha frajola. Também remete a uma sensação: a falta de pisar descalço no gramado do quintal da casa dos meus pais. Saudade de um cheiro — com certeza do churrasco do meu pai. Saudade de um som — como o barulho que o tênis faz na quadra e da bola laranja quicando, junto das risadas das amigas/irmãs que fiz jogando basquete. Uma saudade que é possível sentir na pele, como o calor fritando seu corpo quando abre a porta do carro depois dele ficar parado no sol, que somente o centro-oeste brasileiro tem. Saudade dos bolos e cafés da tarde no laboratório, conversando sobre ciência com dois grandes amigos.

A saudade também pode ser sentida como um eco suave dentro do peito — um toque de lembrança que não machuca, mas também não passa despercebido. Às vezes, ela aparece como uma brisa leve que traz sorrisos. Outras, como um silêncio bom, que me lembra de quem sou e de tudo o que me formou.

Estar longe, vem me ensinando que sentir saudade é uma forma bonita de amar o que já se viveu. É como um fio invisível que me conecta ao que ficou, enquanto sigo caminhando por entre campos verdes e céus nublados. A saudade me acompanha, mas não pesa — ela me enlaça de leve, feito cachecol num dia frio.

Amo cada lembrança que aquece o coração nestes dias frios.
Porque saudade, no fundo, é prova de que a vida é feita de blocos, e que cada bloco é um período que tem começo, meio e fim.

Abril, 2025

“Ressignificar não é esquecer, é transformar a forma como olhamos para o que já vivemos.”

A Europa tem me feito ressignificar muita coisa. Quando saí do Brasil, carregava comigo uma bagagem cheia de histórias: anos de estudo, um currículo com doutorado, pós-doutorados, publicações, salas de aula, sementes, ciência, sonhos. Uma história construída com dedicação, propósito e amor. Eu cheguei aqui achando que tudo isso me definiria — mas, na verdade, foi o ponto de partida de uma reconstrução mais profunda.

Aqui, me vi diante de novas rotinas, novas formas de viver e de trabalhar. Me vi ocupando espaços diferentes, longe das salas de aula, dos laboratórios, do campo de pesquisa. E foi aí que comecei a entender o real significado de ressignificar.

Percebi que meu valor não está apenas nos títulos que conquistei, mas na sensibilidade que desenvolvi ao longo do caminho. Ressignificar, pra mim, tem sido aprender a olhar para mim mesma com mais gentileza. Tem sido aceitar que minha trajetória pode ter pausas, curvas e desvios — e que tudo isso é parte do caminho, não um fracasso.

Aqui, eu ressignifico a ideia de sucesso. Ele já não está mais apenas nas conquistas visíveis, mas na coragem de seguir, mesmo sem certezas. Ressignifico também a ideia de lar — que antes era geografia, e hoje é afeto, presença e pertencimento interno.

Ressignifico até os silêncios — que antes eram desconforto, e agora são espaço fértil para escuta. Escuta do que sou, do que quero ser. Escuta das novas versões de mim mesma, que brotam nesse solo estrangeiro com raízes antigas e folhas novas.

A Europa, com seus ritmos diferentes, seu clima, sua distância e sua beleza sutil, tem me ensinado que recomeçar não é perder. É abrir espaço para se tornar ainda mais inteira.

Estou me tornando essa nova versão de mim.
Porque ressignificar é uma forma de florescer.

Maio, 2025

“Estar longe é viver cercada por silêncios — alguns de paz, outros de incerteza.”

Tenho pensado muito no medo.
Na ansiedade.
Na angústia.

Por que eles se aproximam tanto quando estamos longe de uma rede de relacionamentos, longe dos olhares que nos conhecem desde sempre? Por que o medo parece nos rondar, como se estivesse sempre espiando pelas frestas do dia?

Talvez seja porque, quando se vive em outro país, as pequenas certezas que sustentavam a nossa confiança deixam de existir. Até algo simples, como ir ao hospital, pode ganhar contornos de pesadelo — não pelo medo da doença, mas pela sensação de vulnerabilidade. O idioma, nesse momento, parece uma barreira alta demais, e a ideia de não conseguir explicar o que sentimos desperta um frio instantâneo na espinha.

Mesmo sendo saudável, o pensamento insiste: e se?
E se eu precisar de ajuda?
E se for grave?
E se eu não conseguir me comunicar?

A ansiedade vem, muitas vezes, do simples fato de não ter alguém por perto para pedir socorro. A ausência física daqueles que sempre foram nosso ponto de apoio nos coloca em um lugar interno de solidão que nem sempre é física — é emocional. É como caminhar num campo aberto, mas sabendo que não há ninguém à vista se você tropeçar.

E existe, sim, essa angústia silenciosa de se perguntar: Será que estou no lugar certo?
Não é sobre não gostar do lugar — é sobre a sensação de não se encaixar completamente. É como usar um casaco emprestado que aquece, mas não veste exatamente do seu tamanho.

Ainda assim, percebo que esses sentimentos também são professores. Eles nos lembram que somos humanos, frágeis e, ao mesmo tempo, incrivelmente adaptáveis. Que mesmo longe de tudo o que é familiar, a gente aprende a construir novas redes, novas formas de pedir ajuda, novas maneiras de se sentir seguro.

Talvez o medo nunca desapareça por completo. Mas, aos poucos, ele deixa de ser um inimigo para se tornar um lembrete de que estar vivo é, em si, um ato de coragem.

E, talvez, a resposta para todas essas perguntas não esteja em eliminar o medo, a ansiedade ou a angústia, mas em aprender a conviver com eles como sinais de que estamos vivendo algo novo, fora do nosso território de segurança.

Quando abandonamos a rede de relacionamentos que nos amparava, perdemos também a sensação de previsibilidade. No nosso país, conhecemos os caminhos, os rostos, as respostas e até os cheiros que anunciam que estamos “em casa”. Fora dele, cada esquina é uma pergunta, cada conversa é um desafio, e até o ato simples de pedir um café pode exigir coragem.

Mas há um lado silencioso e transformador nesse processo: pouco a pouco, começamos a perceber que, mesmo no frio das incertezas, somos capazes de nos reinventar. Que conseguimos entender o médico com gestos e palavras quebradas. Que encontramos amigos improváveis em mesas compartilhadas. Que, mesmo longe, somos capazes de criar novas redes, através da paciência e da curiosidade.

Viver longe é, no fundo, um exercício constante de provar para si mesmo que a coragem não é ausência de medo — é justamente caminhar com ele, dia após dia.

Junho, 2025

Julho. Um dia depois do seu aniversário, exatamente no dia 06 de Julho de 2025.
O céu irlandês com aquela luz tímida e delicada que eu já começava a reconhecer como parte da minha própria história. E ali, diante da Blarney House — uma casa que mais parece saída de um sonho antigo, rodeada por jardins que respiram poesia — eu senti uma certeza que me atravessou inteira: era ali. Aquele era o lugar perfeito.

O castelo, a paisagem, o silêncio suave da Irlanda… nada disso me deu a certeza do momento. O que me deu foi você.

É curioso pensar em como essa vontade foi crescendo dentro de mim sem que eu percebesse. Às vezes, eu me perguntava como era possível sentir tudo isso tão cedo, tão rápido, quase sem lógica. Mas a verdade é que a lógica nunca foi tão necessária. A gente se encontrou pouco, nos conhecemos pouco… mas, no fundo, era o suficiente. Sempre foi.

Lembro pontualmente de cada cena que construiu, sem que você soubesse, o caminho até o pedido:

Você andando pela quadra no primeiro treino que fizemos juntas.
Você descendo do carro do seu pai para treinar.
Você almoçando comigo no refeitório dos jogos universitários.
A notificação da sua solicitação de amizade no Instagram.
Você me olhando quando saí do banheiro do seu quarto.
Você me propondo uma aposta.
Eu aceitando a aposta.
Seu sorriso.
Seu beijo.

E, de repente — sem alarde, sem aviso, sem preparo — nasceu em mim a vontade profunda, quase urgente, de estar com você para sempre.

Talvez por isso, quando vi aquela casa, aquele jardim, teve algo que simplesmente encaixou dentro de mim. Não era só a beleza do lugar. Era a certeza de que tudo que eu havia sentido até ali fazia sentido.

Em frente à Blarney House, com o coração batendo mais alto que os passos dos turistas (daquele grupo de amigos que estavam ali rindo e fazendo fotos ao nosso lado), eu pedi. Pedi aquilo que meu coração já carregava fazia tempo, de repente o amor explodiu dentro de mim e tudo aquilo se transformou em palavras: Casa Comigo?

E você disse sim.

Julho, 2025

“Adaptar-se é permitir que o novo nos transforme sem apagar o que já somos. Inspirar-se é reconhecer beleza até no silêncio da chuva (e como chove na Irlanda!!!).”

Viver na Irlanda é uma experiência que transforma.
Não apenas pela mudança de país, mas pela maneira como tudo aqui parece conversar diretamente com a alma — como se cada pedra antiga, cada rua estreita, cada nuance de cinza do céu carregasse uma história que insiste em ser sentida.

Às vezes, penso que há algo ancestral em caminhar por este pedaço da Europa. Como se o sangue reconhecesse — mesmo antes de nós — que existe uma memória profunda pulsando nos muros cobertos de musgo, no vento úmido que sopra entre as árvores, no cheiro da terra molhada que chega logo depois da chuva. É como se uma parte minha, há muito esquecida, sussurrasse: eu já estive aqui.

Adaptar-se, então, não é deixar de ser quem sou.
É permitir que novas camadas de mim se revelem.

A Irlanda me ensina um ritmo diferente — mais silencioso, mais atento, mais interno. Caminho entre arquiteturas que contam histórias com cada detalhe: portas coloridas que parecem sorrir, igrejas que guardam séculos, vielas que poderiam muito bem ser cenário de um livro de fantasia. As casas antigas, os ônibus de dois andares, as vitrines simples, o céu que muda mil vezes por dia… tudo inspira. Tudo respira.

E essa inspiração também me levou para além das fronteiras. Poder viajar entre os países é uma vantagem de estar na Europa, estamos ainda no mês 5 desde que chegamos e já fomos para nosso segundo país, a Escócia, precisamente, Edimburgo.

A Escócia tem algo de mágico — e não no sentido figurado.
Edimburgo parece um lugar onde a imaginação encontrou abrigo. Suas ruas íngremes, seus castelos que surgem do nada, seus prédios escuros e pontiagudos… tudo parece carregar segredos. É impossível andar pela cidade sem sentir que ela tem vida própria.

E, para quem cresceu encantada com histórias, Edimburgo é o coração de um universo que sempre me acompanhou: o de Harry Potter. Cada café, cada ruela, cada esquina parece sussurrar o nome de personagens e feitiços. A cidade tem aquela mistura de real e impossível que acende o que há de mais criativo dentro da gente. É pura inspiração.
Naquelas ruas, eu senti o encontro entre a minha criança sonhadora, a minha adulta em transformação e a minha viajante curiosa. Senti que viajar também é uma forma de adaptação — uma forma de voltar diferente.

E isso tudo me fez perceber algo simples, mas profundo:
a adaptação não é um desafio duro.
É um convite suave.

Um convite para respirar fundo, observar, acolher, permitir.
Cada viagem, cada paisagem nova, cada sotaque diferente, cada café quente numa tarde fria aquece um pedaço do meu coração que talvez nem soubesse que precisava de calor.

As pessoas aqui vivem o cotidiano com elegância despretensiosa. Vestem-se simples, comem fora, bebem nos pubs com alegria calma, leem livros nos parques como quem conversa com velhos amigos. Viajam. Vivem o mundo.
E isso me inspira todos os dias.

Sou grata pela oportunidade de me adaptar e me inspirar ao mesmo tempo.
Porque quando abrimos o coração, o novo não apenas transforma — ele também devolve partes nossas que estavam adormecidas.

Agosto, 2025

Setembro, meu mês, uma virginiana que não para de pensar, sonhar e planejar. E no dia 07 de Setembro, fiz 39 anos.
E, junto com as mensagens, os parabéns e o carinho, veio também um pensamento que tenho tentado entender: é comum se sentir perdida nessa idade?

Talvez seja.
A verdade é que escolhemos a universidade muito jovens — quase crianças, ainda tentando descobrir quem somos, o que gostamos, onde cabemos no mundo. Aos vinte e poucos anos fazemos escolhas que, teoricamente, deveriam nos acompanhar por décadas. E carregamos isso como se fosse simples, como se a vida não mudasse, como se nós não mudássemos (obs: recomendo a leitura do meu ebook “Transição de fases”: Livros, ebooks e artigos).

O curioso é que eu amo minha profissão.
Eu amo o que estudei, o que pesquisei, o que vivi. Amo as sementes, a ecologia, os ciclos, a natureza em seus silêncios e grandezas.
E, ainda assim, me sinto perdida dentro dela.
É estranho — quase contraditório — amar algo tão profundamente e, ao mesmo tempo, sentir que não sei mais para onde ir com isso. É como segurar uma bússola que gira demais.

Talvez porque eu goste de tantas coisas.
Talvez porque a minha vida sempre foi feita de muitos mundos, e agora eles parecem não se encaixar mais tão perfeitamente. Ou talvez seja justamente isso: a vida está me convidando para criar um novo encaixe — um que ainda não existe, mas que pode ser lindo e na verdade acho que estou começando a encontrar ele.

Apesar das incertezas, hoje o sentimento maior é de gratidão.
De felicidade tranquila.
De respirar fundo e perceber que, mesmo sem todas as respostas, eu tenho muito.

Comemorei meus 39 anos no país que amo, ao lado da mulher que amo.
Tomamos vinho, comemos risoto, rimos das coisas simples e assoprei uma velinha espetada num tiramisù. E foi perfeito — porque perfeição, às vezes, é só isso: estar presente, sentir a companhia, sentir o sabor, sentir a vida.

Hoje agradeço pelo que passou, pelo que ficou, pelo que segue comigo.
Agradeço pelas dúvidas também — elas empurram, cutucam, transformam.
Agradeço pela coragem de mudar, pela sensibilidade de sentir, pela força de continuar.

E agradeço por mais um ano.
Que ele venha leve, sincero e cheio de caminhos possíveis.
Que eu encontre meu lugar — ou que eu invente um novo.
Afinal, fazer 39 também é isso: perceber que ainda dá tempo de tudo.

Setembro, 2025

Outubro sempre chega com uma atmosfera diferente.
Na Irlanda, ele carrega aquela poesia melancólica e bonita do outono — as folhas que mudam de tom, o vento que fica mais frio e anuncia, sem pressa, que o ano está caminhando para seu fim. É um mês de transição, de trocas silenciosas, de observar a natureza se recolher para renascer depois.

E aqui, terra que respira história, outubro traz também o espírito do Halloween, que nasceu justamente neste solo.
O antigo festival celta Samhain marcava o fim da colheita e o começo da metade escura do ano. Acreditava-se que, nessa época, o véu entre os mundos ficava mais fino, permitindo que espíritos circulassem entre os vivos. Fogos eram acesos, máscaras usadas, rituais feitos para proteger as casas — e para celebrar o ciclo da vida, da morte e do renascimento.
É impressionante perceber como esse passado ainda vive no presente: nas decorações, nas histórias, nas tradições que resistem.

Mas Outubro, para mim, este ano, veio com outra camada.
Uma ansiedade fina, persistente, anunciando que novembro trará um dos maiores eventos da minha vida pessoal.
É como se o mês inteiro estivesse me preparando — emocionalmente, mentalmente, energeticamente — para algo que vai me transformar de forma profunda.
E, mesmo sendo bonito esperar, também é cansativo sentir tanto.

No trabalho, a rotina segue mecânica.
São 8 horas por dia em um emprego que não conversa com quem eu sou intelectualmente.
Meu corpo está ali — repetindo gestos, seguindo protocolos — mas minha mente vagueia.
Penso, repenso, imagino, planejo.
É curioso como, mesmo em um trabalho tão robótico, minha cabeça nunca descansa. Parece até que, por não exigir meu intelecto, ele acaba estimulando um fluxo interminável de pensamentos. Às vezes é incômodo. Outras vezes, necessário — como se fosse um laboratório interno onde vou testando ideias, medos, possibilidades.

Outubro me trouxe essa mistura estranha de monotonia no corpo e intensidade na alma.
Me trouxe expectativas, pequenas inseguranças, mas também uma sensação boa de estar vivendo algo que importa.

E, enquanto as folhas caem e o país se prepara para o frio, eu também vou me ajustando por dentro.
Me entregando ao movimento natural das coisas.
Porque outubro é isso: um lembrete de que toda transição, mesmo silenciosa, é parte essencial da nossa própria mudança.

Outubro, 2025

Novembro sempre carregou uma força diferente dentro de mim, mas nunca como agora.
Durante muito tempo, o dia 15 de novembro foi uma espécie de cicatriz aberta — um marco da menina que um dia acreditou que só seria amada se mudasse o que via no espelho.

Há 21 anos, naquele mesmo dia, eu passei por uma cirurgia no rosto.
Lembro de tudo com uma nitidez estranha — o medo, a esperança, a expectativa de, talvez, finalmente caber em algum lugar. Eu tinha apenas uma certeza: a de que, se mudasse por fora, as piadas parariam. O bullying cessaria. As pessoas talvez me enxergariam com mais gentileza.
E, de fato, muita coisa mudou.
O que eu não sabia — porque ninguém nos conta isso tão cedo — é que nenhuma cirurgia tem o poder de apagar a dor de não se sentir suficiente.

Naquela época, eu sabia que podia amar.
O que eu não imaginava era que, um dia, alguém poderia me amar de verdade.
Amar o que existe em mim sem exigir moldes, sem pedir correções, sem querer que eu me encaixasse em padrões.
Eu não imaginava que existia no mundo um amor capaz de olhar para mim e dizer, sem palavras:
“eu te vejo, e é assim que eu te quero”.

E então a Karol aconteceu.
No começo, devagar. Depois, de um jeito que tomou tudo.
Quando percebi, ela já tinha colocado a mão justamente no lugar onde eu mais escondia — minha vulnerabilidade.
E ela não afastou a mão.
Ela ficou.

Com ela, eu descobri uma verdade que aos 18 anos ninguém me contou:
alguns amores não chegam para amar o seu exterior. Chegam para curar o seu interior.

E foi por isso que, quando o destino escolheu o dia 15 de novembro de 2025 como a data do nosso casamento, algo dentro de mim fez um silêncio bonito. Um silêncio de entendimento. Um silêncio de cura.

O dia, que um dia representou dor, se tornou o dia mais especial da minha vida.
O dia, em que aquela menina de 18 anos, ferida e cheia de medo, finalmente encontrou paz.
O dia em que o amor — o amor verdadeiro, inteiro, acolhedor — me olhou nos olhos e sorriu.

E eu sorri de volta.

Porque 21 anos depois, o que antes foi uma marca de dor se transformou em um renascimento.
E tudo fez sentido.
Cada lágrima. Cada insegurança. Cada noite em que eu me perguntei se algum dia seria suficiente.

No dia 15 de novembro de 2025, eu entendi que o amor sempre soube onde me encontrar.
Ele só esperou o momento em que eu estivesse pronta para recebê-lo.

E quando ele chegou… ele permaneceu.
Com firmeza.
Com beleza.
Com verdade.

Hoje eu escrevo aquele que talvez seja o capítulo mais importante da minha vida:

Esse foi o dia em que eu sorri para o amor —
e ele, finalmente, sorriu de volta para mim.

Novembro, 2025

Dezembro chegou trazendo o inverno irlandês em sua forma mais pura: o frio que atravessa os ossos, os dias curtos, a escuridão que começa cedo demais. Há um silêncio diferente no ar, quase um convite à introspecção. É impossível não sentir saudade, das nossas famílias, dos cachorros que ficaram, do sol, da vida que um dia foi familiar. Mas, curiosamente, junto da saudade, cresce algo ainda maior: a gratidão.

Em janeiro de 2025, tudo ainda era plano. A Irlanda era um sonho que parecia distante. Em fevereiro e março, o sonho começou a doer: vendemos tudo o que tínhamos dentro de casa, esvaziamos gavetas, despedimo-nos de objetos cheios de histórias. Fizemos as malas mais difíceis — as emocionais. Pegamos a estrada, deixamos nossos cachorros, dissemos tchau às nossas famílias, engolindo o choro e confiando que este processo faz parte de nossa jornada.

Abril foi o choque. A chegada na Irlanda. Uma casa com doze pessoas, um quarto sujo e bagunçado, nenhuma certeza. Não havia emprego, o idioma parecia um muro novamente, e o medo do desconhecido se sentava conosco todos os dias. Ainda assim, seguimos.

Maio trouxe movimento. Trabalho. Estudo. Rotina. Um pouco mais de chão sob os pés. Junho foi abrigo: conseguimos um apartamento só nosso, pequeno e frio, mas cheio de paz. Julho foi amor declarado, ficamos noivas. Agosto, setembro e outubro foram meses de viagens, descobertas e de um amor vivido com presença, como se soubéssemos que cada instante era precioso demais para ser adiado.

Em novembro, selamos tudo isso. Casamos na Dinamarca. Longe da família, mas nunca sozinhas. Com um casal mais que especial como padrinho e o mais essencial: o amor, a coragem e a certeza de que chegamos até ali juntas.

E então dezembro. O mês do recolhimento. Do frio. Da saudade que aperta. Mas, acima de tudo, da gratidão. Gratidão pela vida, pelo caminho percorrido, pelas quedas e pelos recomeços. Gratidão por Deus, que silenciosamente foi abrindo portas, sustentando quando faltou força, presenteando quando menos esperávamos.

Dezembro não é apenas o fim de um ano. É a prova de que sobrevivemos, crescemos e florescemos na Irlanda.
Dezembro é gratidão.

Dezembro, 2025